Música

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Músicas do dia

Vai passar” e “Futuros amantes” – Chico Buarque

Nos tempos que eu era um cara muito limitado musicalmente (restrito a rock e suas variações), um amigo costumava me dizer o quão foda esse tal de Chico Buarque era como letrista. Como exemplo, citava trechos de músicas onde ele conseguia encaixar palavras longas e complexas da língua portuguesa, como ‘paralelepípedo‘ e ‘escafandristas‘. Sendo esse meu amigo um compositor muito talentoso na minha opinião, não tinha como ignorar o elogio ao poetinha. Guardei uma nota mental: precisava dar mais atenção ao repertório de Chico em algum momento.

Depois de muito tempo, ao finalmente descobrir o vasto repertório de Chico (embora ainda falte muito ainda a conhecer), pude constatar de verdade o que me fora dito de sua habilidade com palavras. Ou alguém aqui acha que é mole enfiar a palavra ‘paralelepípedo‘ numa música sem ferir a métrica e o ritmo dos versos? Pois lá está o tijolo maciço de granito na letra de “Vai passar“, totalmente harmônico dentro da música.

Lembrando desta questão das palavras, me perdi de novo apreciando a linda melodia de “Futuros amantes“, que ouvi pela 1ª vez no final do filme “Pequeno dicionário amoroso“, de Sandra Werneck. E em uma das estrofes, os ditos escafandristas explorando nossas memórias, em um Rio de Janeiro submerso. Mais do que a melodia, seus primeiros versos são um verdadeiro alento pra quem acaba de sair de um
relacionamento:

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar [...]

E foi justamente nessa situação que atentei para ela, e me peguei assobiando sua melodia corredores a fora. Pra mim naquele momento, aliviou a dor de mais uma página virada, e a esperança de melhores dias, no embalo da melodia suave da música. Como comecei a ler recentemente um livro sobre as principais músicas de Chico, não tinha como isso não reverberar nas minhas músicas do dia a dia. Quando terminar de ler, comento a respeito no Vida de Navegante.

Foi-se o carnaval, um dos melhores (senão o melhor) da minha vida. Demorei algum tempo até voltar ao ritmo normal, sem tantos ensaios de blocos ao longo da semana. Mesmo tanto tempo depois do carnaval, queria dividir com vocês algo que venho reparando já há algum tempo (especialmente no carnaval): o brasileiro (ou o carioca, sei lá) está redescobrindo o que temos de bom na música.

Claro que talvez não tenha tanta idade assim pra fazer uma comparação extensa, mas pegando o meu exemplo. Cresci numa época onde a esmagadora maioria dos artistas ouvidos eram gringos. E não estou fazendo pouco do movimento BRock, não. Foi forte, presente, mas bastava você pegar um Top10 das rádios mais ouvidas pelos adolescentes da época pra confirmar minha teoria. E com isso guardo boas memórias (e umas más também, faz parte) embaladas por The Cure, The Smiths, Simple Minds, Level 42, U2, Guns ‘n Roses, A-Ha, etc.

Generalismos à parte, minha geração cresceu sim com forte influência estrangeira. Depois de crescidos, uns verteram caminho em direção a MPB, outros fincaram pé no heavy metal e suas variações, outros mais venderam a alma pra música bate-estaca… Até aí, normal. Eu do lado de cá demorei bastante a aceitar e conhecer MPB. O que só aconteceu de uns 8 anos pra cá, quando me encantei pela 1ª vez ao ouvir “Pedacinhos do céu“, de Waldir Azevedo. Ainda um dos meus choros prediletos.

Parei um pouco de prestar atenção no que se ouvia nas rádios, e comecei aos poucos a recuperar o tempo perdido. Com isso, músicas como “Oração ao tempo” me fizeram fazer vista grossa a antipatia que sentia pelo Caetano. “Domingo no parque“, “Aquele abraço” e “Panis et circensis” abriram meus olhos para Gil e Mutantes. “Preta pretinha” foi o estopim para que eu descobrisse muita coisa boa dos Novos Baianos. Chico Buarque então merece um post só dele (um dia eu escrevo, juro!). Em paralelo, estreitei minha relação com o carnaval graças ao Banga, onde fiz as pazes com o samba, vi o poprock nacional renascer com outra roupagem e reafirmei meu amor pelas músicas nordestinas. Mas o mais interessante é: vejo a galera na casa dos 18 anos fazendo o MESMO movimento de descoberta!

O que na minha geração era um modismo (os shows de Tim Maia e Jorge Benjor quando beirava meus 20 anos) estão se consolidando como uma forte tendência. Cada vez mais casas com shows nacionais cheios (desde medalhões como Alceu Valença até gente da nova geração, como Roberta Sá), gente cantarolando as músicas, usando como ringtone em seus celulares (ok, não dá pra comparar com minha época desconectada :D ). E nesse carnaval isso ficou claro e cristalino pra mim, ao acompanhar o Banga com as músicas nordestinas, o Empolga com seus poutpourris de frevo e alguma coisa de Novos Baianos e a bela mistura feita pelo Quizomba. Já tava mais do que na hora, pela qualidade de nossa música.

Dica do Pedro Giglio

Música da semana

Postcards from Italy” – Beirut

gulagO ritmo dessa música é simplesmente contagiante. Não no sentido de te fazer sair dançando ou pulando, mas no sentido de te deixar pensando nele, de manter a música na cabeça. O grupo Beirut, liderado pelo americano Zach Condon, dá um tom pop ao estilo chamado Balkan Folk. Não tenho ainda uma definição clara, mas me parece uma versão moderninha daquelas músicas ciganas do leste europeu, com ritmo bem elaborado, bandolins e instrumentos de sopro acompanhando.

Ouvi Beirut pela primeira vez no blip, apresentado a mim pela Sofia Fada. Fui viciado na música “Elephant gun” (da trilha sonora do seriado Capitu), e agora estou completamente fascinado pelo arranjo dessa aqui. Foi uma das principais músicas que ouvi domingo passado em um dia realmente especial, e sempre que a ouço lembro das sensações daquele dia.

Música do dia

Domingo no parque” – Gilberto Gil & Os Mutantes

Segunda colocada no Festival da Canção de 1968, narra a história de 2 amigos: José (rei da brincadeira) e João (rei da confusão). Por causa de uma mulher, o rei da confusão cai na brincadeira, e o rei da brincadeira criou confusão, em um final que anos depois deve ter inspirado Renato Russo em seu Faroeste Caboclo. A música tem um suíngue gingado, bem no estilo música de capoeira, pelo fato de João normalmente ir pra Ribeira jogar capoeira.

Não sei se é pelo gingado, pelo uso inteligente de figuras de linguagem, pela narrativa da história em si ou se é pelo conjunto da obra. Só sei que estou completamente viciado nessa música nos últimos dias

Música do dia

Anunciação” – Alceu Valença

Gravada em 1983, vem ganhando popularidade de uns anos pra cá, com o flerte da cultura pop com a música nordestina. Neste processo, Alceu leva vantagem, por já buscar a mescla dos ritmos nordestinos com o pop e o rock. De uns tempos pra cá, é uma das músicas mais tocadas por bandas que focam nessa mistura, colocando nesse caldo também grande quantidade de percussionistas, como o Monobloco e o Bangalafumenga. Particularmente prefiro a versão do banga, mas gosto bastante da cantada por Alceu no DVD “Ao vivo em todos os sentidos“, que emenda na música “Tomara“, também dele.

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