Foi-se o carnaval, um dos melhores (senão o melhor) da minha vida. Demorei algum tempo até voltar ao ritmo normal, sem tantos ensaios de blocos ao longo da semana. Mesmo tanto tempo depois do carnaval, queria dividir com vocês algo que venho reparando já há algum tempo (especialmente no carnaval): o brasileiro (ou o carioca, sei lá) está redescobrindo o que temos de bom na música.
Claro que talvez não tenha tanta idade assim pra fazer uma comparação extensa, mas pegando o meu exemplo. Cresci numa época onde a esmagadora maioria dos artistas ouvidos eram gringos. E não estou fazendo pouco do movimento BRock, não. Foi forte, presente, mas bastava você pegar um Top10 das rádios mais ouvidas pelos adolescentes da época pra confirmar minha teoria. E com isso guardo boas memórias (e umas más também, faz parte) embaladas por The Cure, The Smiths, Simple Minds, Level 42, U2, Guns ‘n Roses, A-Ha, etc.
Generalismos à parte, minha geração cresceu sim com forte influência estrangeira. Depois de crescidos, uns verteram caminho em direção a MPB, outros fincaram pé no heavy metal e suas variações, outros mais venderam a alma pra música bate-estaca… Até aí, normal. Eu do lado de cá demorei bastante a aceitar e conhecer MPB. O que só aconteceu de uns 8 anos pra cá, quando me encantei pela 1ª vez ao ouvir “Pedacinhos do céu“, de Waldir Azevedo. Ainda um dos meus choros prediletos.
Parei um pouco de prestar atenção no que se ouvia nas rádios, e comecei aos poucos a recuperar o tempo perdido. Com isso, músicas como “Oração ao tempo” me fizeram fazer vista grossa a antipatia que sentia pelo Caetano. “Domingo no parque“, “Aquele abraço” e “Panis et circensis” abriram meus olhos para Gil e Mutantes. “Preta pretinha” foi o estopim para que eu descobrisse muita coisa boa dos Novos Baianos. Chico Buarque então merece um post só dele (um dia eu escrevo, juro!). Em paralelo, estreitei minha relação com o carnaval graças ao Banga, onde fiz as pazes com o samba, vi o poprock nacional renascer com outra roupagem e reafirmei meu amor pelas músicas nordestinas. Mas o mais interessante é: vejo a galera na casa dos 18 anos fazendo o MESMO movimento de descoberta!
O que na minha geração era um modismo (os shows de Tim Maia e Jorge Benjor quando beirava meus 20 anos) estão se consolidando como uma forte tendência. Cada vez mais casas com shows nacionais cheios (desde medalhões como Alceu Valença até gente da nova geração, como Roberta Sá), gente cantarolando as músicas, usando como ringtone em seus celulares (ok, não dá pra comparar com minha época desconectada
). E nesse carnaval isso ficou claro e cristalino pra mim, ao acompanhar o Banga com as músicas nordestinas, o Empolga com seus poutpourris de frevo e alguma coisa de Novos Baianos e a bela mistura feita pelo Quizomba. Já tava mais do que na hora, pela qualidade de nossa música.



Só que por conta dos ensaios no
E o carnaval do Rio foi uma grande farra a céu aberto. Como comentei com alguns amigos, a última vez que vi a cidade tão cheia foi no reveillon de 1999 para 2000, onde em determinados bairros via mais carros com placa de outros estados do que daqui.
No caso do Céu na Terra (na minha opinião, um dos melhores do nosso carnaval), a alternativa foi sair no desfile pré-carnavalesco, no sábado da semana anterior. No caso do Simpatia é Quase Amor e do Cordão do Bola Preta, eu realmente não sei o que dizer. Há algum tempo evito ir neles por conta da superlotação. O meu muy querido Bangalafumenga, por exemplo, está numa situação complicada: neste ano ficou claro para muitos que a Rua Pacheco Leão já não comporta a quantidade cada vez maior de simpatizantes. Muitas pessoas que foram ao “desfile” (ênfase nas aspas, pois pelo 2º ano consecutivo o bloco ficou parado devido a superlotação da rua) não conseguiram sequer chegar perto da bateria, e alguns mal ouviam as músicas. No caso deles, fica a dúvida: dividir o bloco em dois? Fazer mais de uma apresentação ? Trocar o lugar ? Deixar como está ? Aguardemos o ano de 2010.
Exatamente por isso, digo que o grande lance desse carnaval foi investir na diversificação: conhecer novos blocos, alguns dissidentes dos grandes ‘medalhões’. Por conta disso, quem foi no Cordão do Boi Tolo (spin-off do Cordão do Boitatá) se deu muito bem. Os que deixaram de ir na concentração do Quizomba (também um dos melhores do carnaval) para acompanhar a Orquestra Voadora junto ao MAM também se divertiram bastante com uma grande diversidade de músicas em ritmo de marchinha (desde o tema de Spectreman até Billie Jean, de Michael Jackson, sem falar em outros temas tradicionais de carnaval).
Mas ao meu ver, a grande revelação deste ano foi o Exalta Rei. Formado este ano, o bloco cruzou a Urca tocando músicas de Roberto Carlos em ritmo de marchinha até parar em frente ao prédio em que ele mora, na Av. Portugal. Uma divertida homenagem a um dos grandes nomes da música brasileira, que retribuiu o carinho acenando na sacada de seu apartamento e do playground, recebendo flores e segurando o estandarte do bloco. Quem não foi, perdeu.
Início de janeiro traz aquele saudade dos tempos em que tínhamos uns 3 meses de férias por ano. Parece que o ar é diferente (aqui no Rio, pelo menos, é MUITO quente), tem um cheiro de ‘diversão‘ no ar quase inconfundível. Na Lagoa, os quiosques lotam em praticamente todas as noites de céu estrelado. No trânsito, placas de vários estados do país. Pra ser perfeito, só faltava eu estar de férias, mas enfim…
Andando pela cidade, vemos cartazes de apresentações de vários deles (Empolga às 9, Mulheres de Chico, Suvaco de Cristo, Monobloco, Spanta Neném, Me Esquece, Cordão do Bola Preta, etc), se apresentando geralmente nas casas da Lapa. Nessa época, costumam circular emails com a programação dos blocos ao longo de janeiro e fevereiro, mas enquanto isso não ocorre,
Muitos associam o carnaval do Rio de Janeiro ao desfile das escolas de samba, pura e simplesmente. Um grande show de cores e música, sem dúvida, mas há tempos que o carnaval do Rio não vive só do Sambódromo, na Marquês de Sapucaí. De uns 10 anos pra cá, vem ressurgindo na cidade o carnaval de rua, tradicional em décadas passadas, mas que foi quase extinto nos anos 80 e 90. Por algum tempo, já na década de 90, o Rio era o refúgio de gringos, apaixonados pelas escolas de samba e pessoas interessadas em praias tranquilas e cinemas vazios.
Ultimamente, muita gente aposentou os abadás para entrar de sola no carnaval de rua carioca. O número estimado de foliões dos blocos mais famosos chega à casa dos 500mil. Alguns deles não divulgam o horário do desfile, para minimizar o tumulto. Outros, geram blocos dissidentes, tão bons ou melhores que os originais. Já podemos ver apresentações destes grupos ao longo de todo o ano, nas melhores casas de shows da cidade. Os mais ligados à música podem inclusive se inscrever nas oficinas de percussão de alguns desses blocos e se preparar para ser mais do que um folião no carnaval. E eu, claro, não podia deixar essa passar. 
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