December 2008

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Todos temos aquelas músicas que nos lembram momentos que parecem emoldurados na memória. Bom, pelo menos as pessoas que tem forte relação com a música, e associam esses momentos a passagens da vida. Eis aqui a minha lista de músicas que marcaram momentos bem fortes, aqueles marcados em nossa memória, onde o tempo parece não passar (para o bem ou para o mal):

  1. Take the long way home” – Supertramp: Um dia especialmente cinzento. Aquele que deveria te acompanhar por boa parte da sua vida, dar conselhos, dar sermões, se vai. Prematuramente. Repentinamente. Cemitério cinzento, olhos que teimam em não acreditar no que vêem. Casa parece não existir. Se existir, deve ser um lugar muito distante. A gaita introdutória então faz todo o sentido.
  2. Porcelain” – Moby: Tarde ensolarada, indo a um encontro promissor. Ela se aproxima. Suas roupas parecem pedir licença para tocar sua pele. Seus óculos escuros emprestam curvas que harmonizam perfeitamente com seu rosto. A brisa me traz uma prévia de seu perfume. O contato entre as peles dispara uma faísca. Magnetismo, eu diria, se conseguisse discernir qualquer coisa diferente de “preciso ficar com essa mulher”. Na mente, a música que ela me apresentara dias antes. A música dizia um “So this is goodbye” absolutamente profético. Melhor não ter mesmo prestado atenção, ou perderia esse momento único.
  3. Return to innocence” – Enigma: Acordo cedo, como em todas as manhãs de domingo daquele 1994. Vou ao treino, e volto buscando mais umas horas de sono. Acordo e me deparo com pessoas perplexas. Na tela, o maior ídolo esportivo brasileiro à beira da morte, nas ferragens de sua Williams. De repente, a vida me pareceu tão frágil, tão sem sentido. Como um herói nacional podia terminar daquela forma? Mudando de canal, um videoclipe de trás pra frente de um grupo de nome Enigma me pôs pra pensar, enquanto aquela música me trazia um conforto impensado…
  4. Anunciação” – Alceu Valença (versão Bangalafumenga): Aquecimento para o carnaval, com a presença dos amigos mais queridos, aqueles que são irmãos que escolhemos. Mente vazia, depois de pôr pra fora todos os tombos passados. O corpo acompanha quase que involuntariamente os movimentos da bateria daquele bloco. A platéia parece envolvida num transe, estimulada pelo vai-vém lateral dos tamborins e agogôs. Começa uma música desconhecida, que, num súbito, é interrompida por um riff de guitarra absolutamente familiar. Corre o característico arrepio na espinha. Dias melhores a caminho, ali escutamos os teus sinais.
  5. Detalhes” – Roberto Carlos: Uma longa relação que chega ao fim. Por mais que tenha se investido esforço e sentimento, em certos momentos é hora de reconhecer a hora de pegar o chapéu e seguir adiante. Parece fácil falando assim. Melhor dizendo, nem assim. Por maiores que sejam as certezas, nos sentimos paralisados, incapazes de dar aquele primeiro passo na direção contrária. O sentimento de que todo aquele investimento emocional está descendo pelo ralo é inevitável. Nessas situações não existem culpados, somente personagens de uma história que parece já ter sido escrita. Mas um certo cantor capixaba, comumente chamado de Rei, parece ter conseguido escrever o alento necessário, as palavras que jamais conseguiríamos proferir. A idéia de que a história desses dois personagens será eternizada, ainda que em detalhes que vão sumir na longa estrada…

Electrolite” – R.E.M.

Essa demorou muito mais pra sair, pela quantidade de músicas sensacionais com a letra E. Isso não é desculpa, claro. Fim de ano, projetos precisando de um ponto final, estudos entrando em fase de avaliação, compromissos se acumulando, tudo contribuiu. Mas confesso que pesou também a dificuldade de me sentir confortável com uma música apenas.

Só pra citar algumas, fiquei bastante tentado a optar pelo lirismo melancólico de “Everybody hurts“(também do R.E.M.), com a adrenalina de “Eye of the Tiger” (da trilha sonora do filme Rocky III), muito importante na minha vida em determinado momento, ou com o tom confessional de “Eu sei“, do Legião Urbana. Correndo por fora, o lamento gostoso de “Eu só quero um xodó“, pérola de Dominguinhos que ganhou inúmeras regravações.

No final das contas, optei por essa música do R.E.M. que talvez não seja tão impactante com as demais, mas tem muito a ver comigo. Ritmo leve, alegre, descompromissado, e que foi parte importante de vários momentos da minha vida desde que conheci essa música ao ouvir o ‘New Adventures of Hi-Fi’ pela primeira vez, em 1997. Me traz uma sensação de novidade que eu não sei explicar. Como estamos prestes a entrar em novo ano, que este 2009 seja leve, alegre e descompromissado, tanto quanto o piano de Mike Mills nessa música.

Música do dia

Domingo no parque” – Gilberto Gil & Os Mutantes

Segunda colocada no Festival da Canção de 1968, narra a história de 2 amigos: José (rei da brincadeira) e João (rei da confusão). Por causa de uma mulher, o rei da confusão cai na brincadeira, e o rei da brincadeira criou confusão, em um final que anos depois deve ter inspirado Renato Russo em seu Faroeste Caboclo. A música tem um suíngue gingado, bem no estilo música de capoeira, pelo fato de João normalmente ir pra Ribeira jogar capoeira.

Não sei se é pelo gingado, pelo uso inteligente de figuras de linguagem, pela narrativa da história em si ou se é pelo conjunto da obra. Só sei que estou completamente viciado nessa música nos últimos dias

  1. “Layla (versão acústica)” – Eric Clapton: sou totalmente fascinado com o suíngue que Clapton imprime na versão acústica dessa música. Um blues muito gostoso de ouvir.
  2. “Carolina, Carol Bela” – Jorge Ben: Outra pérola de Jorge Gen da década de 70, na minha opinião a melhor fase dele. Talvez essa mudança para ‘Benjor‘ não seja boa pra ele numerologicamente falando :)
  3. “Iris” – Goo Goo Dolls: a grande música da trilha sonora do filme Cidade dos Anjos
  4. “Roxanne” – The Police: essa é quase sinônimo de The Police. Pena que o Sting não tenha mais cordas vocais pra imitar o vocal da gravação original
  5. “Fátima” – Capital Inicial: música do Capital que me marcou desde a primeira vez que eu ouvi, ainda na década de 80

Menções honrosas:
“Michelle” – Beatles
“Maria, Maria” – Milton Nascimento

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